sexta-feira, 29 de maio de 2009

Sinestesia

Ela não esperava tanta coragem pra conseguir completar na primeira tentativa, era tão impulsivo que quando acabou ela jogou o telefone na cama, deitou a cabeça no travasseiro e deu uns leves tapinhas nas maçãs do rosto pra se certificar de que estava acordada, de que tinha sido ela mesma ao telefone. Foi tão natural, as palavras saíam como se fossem ditas pra um amigo de anos, com o qual não se precisa medir ou repensar as palavras, elas simplismente saíam, ela imaginara que as risadas seríam disfarces da insegurança, mas não, elas eram sinceras, e por cima delas vinham mais histórias e mais risadas e mais sensação de cumplicidade.

Assim que ela se reconectou à realidade era tudo sinestesia, as vozes da televisão se misturavam e pareciam cantarolar a música da última vez, os sabores e os cheiros ela sabia de cor e os sentia simultaneamente em uma explosão que a fez desabar numa afirmativa: Esse havia sido seu último grito, sua última chance de fazer algo que não parecesse pretencioso.
E não houve resposta, não tinha ninguém lá fora esperando quando ela passou pelo portão e procurou no meio da multidão e ela não podia fazer nada... Era a ácidez da impotência passando mais uma vez pela garganta dela, antes mesmo dela gritar, já que não se permitia chorar, ainda não era tão forte assim pra fazê-la chorar e ela não ia deixar ser.

"Se tudo isso foi feito pra você parar com a indecisão e decidir entre desistir e se entregar, acho que você já tem sua resposta née? "

sexta-feira, 22 de maio de 2009

açúcar

Ela fantasiava encontrá-lo em todos os lugares que ela ia, ela se arrumava pensando que talvez eles pudessem se encontrar em qualquer esquina, ela seguia com o olhar todos os outros garotos que pareciam com ele de longe.
Isso havia se tornado psicótico e patético, sem pitadas nem colheres de açúcar pra amenizar a amargura das palavras.
Ela insistia em ver sinais nas coisas mais corriqueiras possíveis, uma música que havia tocado nas duas vezes que eles estiveram juntos, uma música famosa que não passa mais de 20 minutos sem ser tocada nos rádios, mas se essa maldita música tocasse enquanto ela pensava nele era um sinal. Agora some o fato dela pensar nele praticamente o dia todo com o fato da música tocar a cada 20 minutos e conclua com a possibilidade disso acontecer no mesmo instante, tá aí o sinal tão importante que ela encontrava. Era deprimente.
Era amargo e sem açúcar, mas não a despertava do mundo ao qual era se submeteu. Não havia amargura que a despertasse, não havia açúcar que amenizasse o gosto forte das verdades. Existiam a verdade e a falta de vontade de aceitar, assim como havia a escolha entre esquecer ou ir atras, escolha essa que mudava a cada manhã junto com sua mudança de humor costumeiro, escolha essa que ela deixou adormecida. Penso eu que para que seja decidida não por ela, mas por circunstâncias que por mais que ela negasse aconteceriam mais cedo ou mais tarde, ele ia estar feliz com outra e a escolha não teria mais sentido.

Ela adoraria uma festa, só pra poder vê-lo, depois de tanto tempo ela tinha perdido as esperanças, ou as migalhas que existiam, ela só queria vê-lo sorrir.
Fazia mais de um mês, repito colocando ênfase no MÊS, não é como dias ou semanas que passam como passam trens na estação, ou diria ainda melhor, metrôs. Faz mais de um mês e tanta coisa podia ter acontecido com ele, ela estava disposta a ligar só pra dizer que estava com saudades, mas nunca tinha oportunidade, nunca tinha paz e silêncio pra respirar fundo e digitar as teclas no telefone, então foi passando assim, dias, semanas, mês e nada, ele poderia estar namorando uma hora dessas e ela não se perdoaria por ter deixado passar tanto tempo, por ter deixado escapar chances que ela podia ter construído com um simples telefonema que camuflasse em risos e besteiras todas as intenções contidas nele, todas as espectativas, esperanças e desejos que uma única linha telefônica separavam.
O tempo havia piorado as coisas, principalmente nessa semana e ela não sabia porque, mas enfim, garotos pra aumentar a lista não a interessavam, em algumas de suas poucas tentativas ela pensava tanto nele que a situação chegava a enojá-la, não, isso não era normal e era isso que ela repetia incansavelmente.
Odeio o fato de só escrever aqui quando estou deprimida, mas é o meu "estar mal" que me faz querer colocar pra fora sentimentos que meus sorrisos reprimem quando eu estou mais contente.
Bem, estou aqui novamente e com mais tempo para publicar, que seja bom pra vocês, meus caros leitores e que seja eficiente pro meu caso.

sábado, 9 de maio de 2009

Perfume

Eu não posso arrancar essa autoproteção de mim como se fosse uma página de um caderno usado, ela já é um pedaço de mim, como se fosse um novo perfume que eu tivesse adquirido ou ganhado, acho que o termo certo seria aperfeiçoado, como se eu tivesse misturado decepção com aprendizado e essas duas frangrâncias resultaram em autoproteção, essencialmente composta por medo de se entregar novamente.
Eu já senti tanta dor pela minha facilidade de entrega sentimental que me arrepia a idéia de vir a sentir um décimo de tudo aquilo. É tão mais fácil esquecer do que tentar e se ferir denovo.
Sou fraca, admito tenho medo de não aguentar as consequências de ir atras do que eu quero, me falta determinação e coragem, me falta uma força que eu ainda não sei ao certo a combinação das essências.
Ainda espero a felicidade piscar pra mim do ponto de ônibus, ainda espero a felicidade me ligar e me chamar pra sair, mas eu não vou tentar encontrar essa felicidade em qualquer um que me ofereça um abraço ou uma coca-cola, eu vou ficar menos esperando a felicidade se apaixonar por mim antes que eu me entregue a ela com tudo de mim. Espero que até lá, eu já tenha aprendido as essências da força e o cheiro da autoproteção tenha deixado de me impregnar pra que eu possa olhar e sorrir sem medo.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

excesso, confesso

Ela não queria ter que pensar tanto nele antes de dormir, mas era inevitável, foi a forma que ela encontrou nas últimas semanas pro sono chegar mais rápido e pra aumentar a probabilidade de sonhar com ele, o que era um tanto pré-adolescente em excesso, confesso, mas era bom.
O desejo de esquecer não gritava dentro dela, nem quando ela lembrava da impossibilidade (?) das suas fantasias tornarem-se realidade, era tão bom alimentar as fantasias e inventar histórias que iam de um cinema a uma viagem, oscilavam entre o intervalo entre a escola e o curso de fotografia e o sábado a noite.
Quanto mais ela imaginava, mas ela queria ter ele mais perto, ela queria ele sorrindo, olhando pra ela e sentindo ela. Ela podia viver assim, fechando os olhos e ouvindo a voz dele repetidamente, repetidamente.

Quando ela pensava ela sentia, quando ela lembrava ela se alegrava com o fato de ter tido pelo menos uma vez, que fosse antes da realidade bater, que fosse antes da décima segunda badalada do relógio, mas que fosse, que fosse intenso que fosse real, a única cena real a qual ela se agarrava quando se sentia sozinha.
Ela enxergava os sinais e via letras e nomes e escutava as pessoas e não conseguia pensar que não tinha uma ligação naquilo tudo, que não tivesse uma mãozinha mágica em toda aquela perfeição, mas era a perfeição que a tornava insegura, depois de ter escutado tanto que tudo que é perfeito é único e não se repete ela sentia medo de não ser real nunca mais, por mais que essa fosse sua idéia pessimista que não a deixasse voar demais quando ela vinha com a total força do seu significado era apagada pela lembrança de um beijo ou uma risada que provocavam sensações mais satisfatórias.

Eu tenho pressa que a dor pode voltar

Há quem não cansa de remoer pequenos problemas e insiste em só querer aquilo que não pode ter.
E o que eu tenho que aceitar não me interessa no momento, preciso de um pouco menos de autopiedade, preciso parar de programar as horas que eu vou parar, sofrer e chorar.
Digo isso para não me pressionar, para não me controlar ou me deixar controlar.
Digo isso porque é inútil me encher de promessas que eu não posso cumprir, desde intenções idiotas como estudar mais, escrever mais e pensar menos até necessidades inrustidas como ir atrás ao invés de fantasiar o improvável.

Andei procurando indícios de quando e porque eu me deixei levar assim, de quando eu me tornei tão insegura ou quando eu perdi o controle desse jeito tão intenso.

"Olha pra mim e vê o que te faz voltar
Olha pra mim e me deixa te mostrar que eu posso ser exatamente o que você precisa nesse momento"

Eu vou continuar remoendo meus pequenos defeitos, minha não tão sérias desilusões e meus nenhum pouco sérios problemas, vou continuar insistindo no que eu não posso ter, pelo menos pensar no que eu não posso ter liberta alguns sorrisos automáticos.