sexta-feira, 29 de maio de 2009

Sinestesia

Ela não esperava tanta coragem pra conseguir completar na primeira tentativa, era tão impulsivo que quando acabou ela jogou o telefone na cama, deitou a cabeça no travasseiro e deu uns leves tapinhas nas maçãs do rosto pra se certificar de que estava acordada, de que tinha sido ela mesma ao telefone. Foi tão natural, as palavras saíam como se fossem ditas pra um amigo de anos, com o qual não se precisa medir ou repensar as palavras, elas simplismente saíam, ela imaginara que as risadas seríam disfarces da insegurança, mas não, elas eram sinceras, e por cima delas vinham mais histórias e mais risadas e mais sensação de cumplicidade.

Assim que ela se reconectou à realidade era tudo sinestesia, as vozes da televisão se misturavam e pareciam cantarolar a música da última vez, os sabores e os cheiros ela sabia de cor e os sentia simultaneamente em uma explosão que a fez desabar numa afirmativa: Esse havia sido seu último grito, sua última chance de fazer algo que não parecesse pretencioso.
E não houve resposta, não tinha ninguém lá fora esperando quando ela passou pelo portão e procurou no meio da multidão e ela não podia fazer nada... Era a ácidez da impotência passando mais uma vez pela garganta dela, antes mesmo dela gritar, já que não se permitia chorar, ainda não era tão forte assim pra fazê-la chorar e ela não ia deixar ser.

"Se tudo isso foi feito pra você parar com a indecisão e decidir entre desistir e se entregar, acho que você já tem sua resposta née? "

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